O que é ser humanista

18-01-2013 19:52

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Caruso Samel

Depois que passei a escrever artigos e livros, com certa frequência, venho sendo qualificado por muitos leitores eruditos de “humanista”. Daí, ter dado largas à minha natural curiosidade de pesquisar mais a fundo sobre o que já sabia a respeito do movimento humanista na evolução cultural do Ocidente. Não foi tarefa fácil, conforme vocês verão no desdobrar deste artigo. Afinal, como e quando nasceu o humanismo? E o que é ser humanista nos dias de hoje?

Dentro do contexto histórico e cultural, o humanismo marcou uma transição cultural que nasceu por volta de 1418/1434, em Portugal, e se expandiu pela Europa a partir de 1460 até o eclodir do Renascimento, por volta de 1527. Sua finalidade foi a de exaltar os valores humanos, dando assim nova dimensão ao homem. 

A expansão do humanismo levou à fundação de academias, bibliotecas e teatros em Roma, Florença, Nápoles, Paris e Londres. Esse processo foi acelerado com a invenção da imprensa de tipo móvel por Johannes Gutenberg, em 1439. Assim, logo de início, o humanista se caracterizava pelos trabalhos de estudo e tradução de textos antigos, mormente gregos e romanos. Desse trabalho minucioso e fecundo de inspiração clássica o ser humano passou a ser valorizado, nascendo a necessidade de sair em busca da verdade por meio do uso da razão, fundamentada na observação e explicação dos fatos e fenômenos do dia a dia. 

Dessa ligeira introdução podemos inferir que, originariamente, os humanistas eram todos os intelectuais da época que passaram a criticar abertamente a mentalidade medieval, sendo uma de suas características principais a abrangência de conhecimentos de que eram dotados, já que não se especializavam em uma única área de conhecimento.

O aparecimento do humanismo marcou, portanto, a transição de uma Europa caracterizada por valores consubstanciados por aspectos medievais para sociedades e culturas voltadas para uma nova realidade mercantil, dando lugar, assim, ao surgimento da burguesia. Isso levou a economia de subsistência feudal a ser substituída pelas atividades comerciais. Tem início, então, uma retomada da cultura clássica nos moldes greco-romanos, esquecida durante a maior parte da Idade Média. O resultado final desse movimento foi a substituição do pensamento teocêntrico (Deus como centro de todas as cogitações) pelo antropocentrismo (o homem como centro de todas as coisas e necessidades). Com esse movimento, a Igreja perdeu parte de sua imensa influência governante, transferida gradativamente ao poder secular dos reis. 

Depois de termos passado pelo pano de fundo do alvorecer do humanismo e, dada a sua abrangência de significados na atualidade, muitas palavras qualificadoras, verdadeiros “sobrenomes” ou adjetivos foram agregados ao nome para significar outras modalidades agregadoras. Vamos passar em revista essas modalidades específicas com seus significados ao longo dos séculos e nos dias atuais. Eis o resultado de nossa pesquisa:

HUMANISMO RENASCENTISTA. Esta modalidade desenvolveu-se em sequência ao humanismo originário, já no final da Idade Média, com o renascimento da literatura clássica renovando a confiança nas habilidades do ser humano no uso do seu livre-arbítrio para determinar por si mesmo o que é verdadeiro e o que é falso na tomada de decisões e construção de seu futuro.

HUMANISMO LITERÁRIO. É a modalidade aplicada em conexão com uma devoção pelas humanidades ou cultura literária, abrangendo a prosa, a poesia e a música clássicas.

HUMANISMO CULTURAL. Aqui temos um encontro com a tradição racional e empírica que se originou, principalmente, da Grécia Antiga e das tradições do Império Romano. Essa cultura humanista evoluiu ao longo da história da Europa para constituir-se, nos dias de hoje, numa base fundamental da abordagem ocidental à ciência, à arte de governar (teoria política), à moral, à ética e à lei.

HUMANISMO FILOSÓFICO. É um enfoque abrangente ou um modo de vida fundamentado na necessidade e no interesse humano. Normalmente, esta modalidade é subdivida em duas subcategorias: o humanismo cristão e o humanismo moderno.
HUMANISMO CRISTÃO. Os dicionários o definem como sendo "uma filosofia que defende a auto- realização humana dentro da estrutura dos princípios cristãos". Tem um vínculo especial com as tradições religiosas da Renascença e com ela se coaduna.

HUMANISMO MODERNO. Corliss Lamont o define como sendo "uma filosofia naturalista e repousa basicamente sobre a razão e a ciência, sobre a democracia e a compaixão humana". É também conhecido com os nomes de Humanismo Naturalista, Humanismo Científico, Humanismo Ético e Humanismo Democrático. O Humanismo Moderno tem origem dual, tanto secular quanto religiosa, e estas constituem suas subcategorias.

HUMANISMO SECULAR. É uma derivação do racionalismo e do iluminismo do século XVIII, bem como do livre-pensamento do século XIX. Muitos grupos de cientistas e notáveis filósofos acadêmicos, sem outra filiação, defendem esta filosofia.

HUMANISMO RELIGIOSO. É a fé em ação, segundo alguns notáveis dessa corrente. Teve influência de congregações religiosas, tais como da Cultura Ética, do Universalismo e do Unitarianismo, que se apresentam como humanistas modernos.

Interessante consignar que tanto o humanismo religioso como o humanismo secular caminham de mãos dadas, e a prova disso é que ambos assinaram tanto o Primeiro Manisfesto Humanista, em 1933, como o Segundo Manifesto Humanista, de 1973. Eles discordam apenas na definição de religião e na prática da filosofia, que constituem a única diferença entre as duas correntes.

Segundo alguns humanistas seculares de notável saber, o humanismo nos ensina que é imoral esperar que Deus aja por nós. Temos o grande poder da faculdade do livre-arbítrio e um alto grau de liberdade para fazer nossas escolhas sobre o que devemos fazer. Portanto, devemos agir para acabar com as guerras, os crimes e a brutalidade humana desta e das futuras gerações. O humanismo nos diz que não importa qual seja a nossa filosofia a respeito do Universo, a responsabilidade pelo tipo de mundo em que vivemos, em última análise, cabe a nós mesmos.

Do que ficou exposto, como racionalistas cristãos, podemos nos enquadrar e nos intitular, neste contexto do humanismo, como humanistas seculares voltados para a divulgação, propagação e aprimoramento dos valores espirituais (atributos do espírito) na forma como são aplicados no viver terreno como sentimentos e emoções e, por que não dizer também, como virtudes excelsas no desenvolvimento e na evolução.

(O autor, escritor, é militante da Filial Butantã-SP)